Publicado por: Marcos Palacios | março 3, 2013

Nossa Cachaça está deixando de ser água? Uma questão de competitividade.

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Houve um tempo em que se cantava:

“Você pensa que Cachaça é água?

Cachaça não é água não,

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão…”

Naqueles tempos, a Cacahaça era um produto extremamente popular, ainda que já houvesse, claro, uma certa elite de Cachacistas (não confundir com Cachaceiros) que colecionavam Cachaças e seus rótulos, sabiam distinguir as madeiras. Bebiam por opção e prazer e sem preocupações de cunho econômico.

De uns tempos para cá, a Cachaça vem se ‘gentrificando’, para usar uma expressão inglesa – gentrification – que se refere a upgrades, de um modo geral, seja de bairros, hábitos ou modos de vida. Alguns mais informal e vernacularmente diriam que a Branquinha vem se afrescalhando, com  o perdão da expressão politicamente incorreta.

Nada contra a qualificação do produto; muito pelo contrário. Já era de tempo de que – emulando o vinho que adotou a prática desde os tempos do Marquês de Pombal – as Cachaças passasem a ter regiões demarcadas, seus terroirs, garantias de origem, selos de qualidade, concursos, premiações, confrarias  etc.

O problema é que – estando no Brasil – a ganância, a fome por margens de lucros cada vez maiores, começa a mostrar suas garras e a Cachaça pode estar caminhando – a passos largos – para uma situação de perda de competitividade.

Competitividade com que? ” – perguntarão de imediato alguns. “A Cachaça é um produto único, não compete…”

Lêdo engano e a situação em que me vi hoje pela manhã, em um supermercado de Salvador, pode ser ilustrativa. Passei a vista pelas prateleiras das Cachaças. Lá estavam as tradicionais ‘levanta defunto’, em suas garrafas de plástico, a preços incrivelmente baixos. Logo acima, as mais tradicionais industralizadas (51s, Pitus e assemelhadas), já com preços um pouco mais salgados, mas ainda classificáveis, por agora, como ‘populares” . O choque se apresentou na prateleira “de cima” onde me deparei com Boazinhas, Meia-Luas, Salineiras e suas primas, com preços na faixa dos U$18 (é , dolares, American Money!) para cima.

Uau! Não faz muitos anos, eu comprava uma Boazinha – que sempre foi uma de minhas prediletas para um consumo cotidiano – por pouco mais de U$ 4 ou 5. Lá está ela, na mesma garrafa, mas com outro rótulo, por exatos U$ 19 dólares e 15 cents!

Caminhando mais um pouco por entre as prateleiras, ficou claro que para as vodcas as Cachaças mais qualificadas já perderam a competitividade. Compra-se uma boa vodca nacional por menos que uma Cachaça da faixa da Boazinha… E  lembremo-nos que a grande maioria dos brasileiros de classe média pensa o Mundo em termos de capirinha x caipirosca. Nesse terreno, a competitividade existe mesmo!

Ainda pior: as Cachaças gentrificadas estão começando a perder competitividade para whiskeys importados! Com o dólar ‘estabilizado’ à força e a crise na Europa, pode-se hoje comprar vários whiskeys escoceses, engarrafados na origem, por preços iguais ou inferiores aos das Cachaças gentrificadas. Em situações de crise, as margens de lucro tendem a cair, sendo em muitos casos mais importante exportar conseguir divisas que ter altos lucros, especialmente em face da contração dos mercados internos dos países exportadores. O que pode chegar aos extremos do dumping. Mas antes que se apele para essa tradicional desculpa para a falta de competitividade de nossos produtos, reconheçamos que uma quadruplicação ou quintuplicação de preços (em termos internacionais, dolarizados) não dá para encarar.

Estaremos assistindo a um verdadeiro ritual do chamado ‘tiro no pé’ por parte dos produtores de Cachaça ? Parece que sim e tendo como gatilho – ou pólvora – a eterna ganância de nossos empresários.

E um P.S.-  O rótulo que ilustra estas divagações etílico-econômicas saiu do Blog Rótulos de Cachaça. Visitem.

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